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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Dialogando com a nossa cultura: uma leitura musical sob a ótica da criação, queda e redenção

cultura
Se existe algo que dificulta um diálogo inteligente entre os cristãos e a nossa cultura é o fato de que, geralmente, estes se posicionam (muitas vezes até corretamente) sob determinadas questões sem, contudo, dialogarem com os descrentes, apontando os aspectos de sua fé que foram influentes neste seu posicionamento. Muitos, infelizmente, não sabem dar a razão da esperança que possuem…

Há um tempo realizei um trabalho um tanto desafiador, porém muito interessante: efetuar uma “exegese musical”, sob a ótica da criação (elementos presentes que evocam a origem do ser humano e aspetos implantados por Deus em nosso “DNA”), queda (o que o pecado fez e que “estragou” aquilo de bom que Deus havia implantado no homem) e redenção (como podemos observar uma tentativa humana de redimir o que o pecado estragou e como podemos aproveitar estes elementos para criar “pontos de contato” com as pessoas).
Vejo que, em muitos casos, os cristãos estão, utilizando-se das “pedras” (fundamentos da fé), criando muralhas para se defenderem da cultura, ao invés de tentar construir pontes e levar o Verdadeiro Evangelho ao encontro daqueles que, como nós há tempos, vivem sem esperança e sem Deus neste mundo (Ef 2.12).
Escolhi a música abaixo e encontrei vários “pontos de contato” que evidenciam a ânsia de cada pessoa na busca por algo que é tremendamente legítimo (divertir-se), porém sem alcançar bons resultados…
Vamos à música e às considerações mais adiante que certamente trarão uma boa reflexão para todos nós…
Música: Diversão (Titãs)

A vida até parece uma festa,
Em certas horas isso é o que nos resta.
Não se esquece o preço que ela cobra,
Em certas horas isso é o que nos sobra.

Ficar frágil feito uma criança,
Só por medo ou por insegurança.
Ficar bem ou mal acompanhado,
Não importa se der tudo errado.

Às vezes qualquer um faz qualquer coisa
Por sexo, drogas e diversão.
Tudo isso às vezes só aumenta
A angústia e a insatisfação.

Às vezes qualquer um enche a cabeça de álcool
Atrás de distração.
Nada disso às vezes diminui
A dor e a solidão.

Tudo isso, às vezes tudo é fútil,
Ficar ébrio atrás de diversão.
Nada disso, às vezes nada importa,
Ficar sóbrio não é solução.

Diversão é solução sim,
Diversão é solução prá mim.
Diversão é solução sim,
Diversão é solução prá mim.
Diversão é solução sim,
Diversão é solução prá mim.
Diversão!
Diversão!

1. História – Qual a história que a canção conta?
Esta música faz uma comparação da vida com uma festa, dizendo que em muitos momentos o que nos sobra nesta vida é poder desfrutá-la, ainda que o preço a pagar pela nossa diversão seja alto demais. Logicamente o autor está falando no preço cobrado por uma “curtição” (diversão) embasada no sexo e nas drogas.
A música ainda informa que uma diversão embasada no vício deixa a pessoa totalmente fragilizada, como uma criança, tendo em vista que os efeitos colaterais da droga muitas vezes promovem sentimentos de medo e de insegurança, ainda que a pessoa esteja acompanhada de seus amigos ou “amigos”. Ressalta, porém, que o sexo e as drogas não resolvem o problema da pessoa, pelo contrário, por vezes aumenta sua angústia e sua insatisfação com a vida.
Mas não é somente o sexo e as drogas que possuem estes efeitos colaterais, o álcool, que também é buscado pelas pessoas para tentar promover a diversão, também é ineficaz em seus efeitos, aumentando também sua angústia e sua insatisfação.
Esta música reconhece por fim que tudo isso é algo fútil, se embriagar buscando uma diversão. No entanto, por não apontar para uma saída satisfatória, acredita que se manter sóbrio também não resolve o problema da pessoa. Termina dizendo que a diversão é a solução para as pessoas, diversão esta que, de acordo com o início da música, está embasada nos prazeres que o vício proporciona, ainda que o preço a pagar seja a angústia (por não resolver os problemas da vida) e a insatisfação (pois o período de “alegria” que o vício promove é momentâneo e sempre se vai em busca de algo mais).

2. Investigue elementos da Criação
A diversão faz parte da vida do ser humano desde a sua criação. Deus quando criou Adão e Eva, os colocou num jardim chamado Éden (Gn 2.8), que quer dizer “delícia”! Assim sendo, podemos entender que o desejo desta música, ainda que não plenamente compreendido pelo autor, mas que evoca algo do íntimo de cada ser humano, é conseguir restaurar o Éden em nossas vidas, buscando prazer e diversão, por meio das “delícias” que este mundo pode oferecer, porém, muito distantes da verdadeira “delícia” original.
A sexualidade foi algo criado por Deus para ser desfrutada dentro do plano que Ele estabeleceu, que é o matrimônio. O ser humano busca satisfazer este desejo legítimo, já que é um desejo planejado pelo Criador. No entanto, nesta música, também não consegue atingir o propósito de Deus, visto que ocorre fora dos laços matrimoniais.
Podemos ver nesta música um discernimento do bem, quando o autor julga que uma pessoa pode estar bem ou mal acompanhada (uma pessoa bem acompanhada, de acordo com a música, terá auxílio quando as coisas não ocorrerem da maneira como ela espera). Tal atitude de se preocupar com aquilo que é bom, também nos leva de volta ao Éden, onde tudo era somente para o nosso bem estar.
Outro aspecto que chama a atenção é que o autor desta música prevê que uma diversão somente ocorre quando uma pessoa está acompanhada. De fato, Deus não nos criou para vivermos sozinhos (Gn 2.18), e a diversão ocorre quando estamos acompanhados, bem ou mal de acordo com a música, mas precisamos sempre de alguém para estar ao nosso lado e nos divertir plenamente.

3. Investigue elementos da Queda
Existe nesta música a deturpação da diversão sadia. Como vimos, Deus nos criou para desfrutarmos do Éden, porém, devido ao pecado da humanidade, fomos expulsos dele. Infelizmente, por isso, “qualquer um faz qualquer coisa” tentando se divertir e, por causa da queda, o que a humanidade têm colhido é a angústia e a insatisfação. Deus nos fez para desfrutarmos de uma diversão, no entanto, a diversão que este mundo oferece é temporária, frustrante e prejudicial ao próprio ser humano.
Deus fez as frutas para servir de alimento para o ser humano, podemos dizer que as frutas também são para o deleite do mesmo (haja vista que possuem um sabor apetitoso também, não apenas nutrientes), porém o homem, devido ao seu pecado, descobriu que um processo de fermentação destes alimentos, produz o álcool que, bebido em excesso, contribui com seus efeitos para um “escape” da realidade quando as coisas não estão caminhando muito bem.
Esta música chega a ecoar a sabedoria de Salomão no livro de Eclesiastes, quando diz: “tudo isso, às vezes tudo é fútil”. Salomão disse: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (Ec 1.2). Com isso ela enfatiza o desespero de alguém que não consegue encontrar sentido nas coisas que fazemos na vida, corremos, corremos e não encontramos solução.

4. Investigue elementos da Redenção
Existe uma tentativa de se buscar a redenção de um mundo que gera angústia e insatisfação na vida das pessoas. É por isso que elas estão dispostas a qualquer coisa para resgatar a alegria perdida e a diversão que nossa alma anseia. É uma pena que as pessoas acabam buscando o certo nos lugares errados, nunca atingindo a redenção almejada.

5. Como utilizar esta música para evangelismo, discipulado, apologética, etc.
O homem busca se divertir, mas deve reconhecer que a verdadeira diversão só é obtida quando nos alinhamos ao Plano divino que envolve sim uma vida abundante e divertida (conf. Jo 10.10), mas que culmina com uma vida eterna nos Céus.
O Deus da Bíblia não é contra a diversão, como muitos podem questionar. Na verdade Ele até nos incentiva a isso (planejando vários períodos de festas para o povo judeu, por exemplo), o que ocorre é que, como um Pai amoroso, Ele não quer ver os seus filhos praticando atos irresponsáveis quando se divertem e também não quer que canalizemos nossa alegria em outra direção que não seja nEle próprio, como o povo de Israel chegou a fazer e foi punido por isso. Veja o texto a seguir:
Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles; porquanto está escrito: O povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se. E não pratiquemos imoralidade, como alguns deles o fizeram, e caíram, num só dia, vinte e três mil. Não ponhamos o Senhor à prova, como alguns deles já fizeram e pereceram pelas mordeduras das serpentes. Nem murmureis, como alguns deles murmuraram e foram destruídos pelo exterminador. Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado. Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia. (1Co 10.6–13)

Uma pessoa pode querer se divertir, aliás, ela deve se divertir, porém, qualquer diversão que não aponta para um relacionamento com Deus e com o próximo de maneira saudável, é vaidade e correr atrás do vento. Diversão é a solução para os habitantes deste mundo triste e medonho, mas esta verdadeira diversão só consegue ser desfrutada na alegria do Espírito, como lemos em Romanos 14.17: “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”.
Pr. Franck Neuwirth

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